Minas nunca sonhou com descobertas marítimas, nem com grandes conquistas. Não sonhou abrir rotas em remotas geleiras ou cruzar áridos desertos. Nem sonhou com viagens espaciais. Santos Dumont nasceu em Minas, mas voou longe. Minas é chão, foi arrancada do fundo da terra. De bandeiras na mão rasgaram o solo, quebraram a pedra e tiraram tudo que era minério e mineral: do ouro à água, da mica ao diamante, do ferro ao nióbio. Nasceu a fórceps.
O francês Henri Gorceix, fundador da Escola de Minas de Ouro Preto, viu com olhar metálico que “Minas Gerais é um coração de ouro em peito de ferro.” Carlos Drummond de Andrade, que cantou sua terra com reverência, tristeza e crispação, a viu com olhar poético: “Minas é dentro e fundo. As montanhas escondem o que é Minas.” Mas estimou: “Noventa por cento de ferro nas calçadas/ oitenta por cento de ferro nas almas.” Mineiros nascem minerais.
Crianças, pisamos em Minas, o minério enfiando na sola dos pés, sem noção do quanto vale, de como nos vale, de quando nos invade o sangue, o coração e a mente. Montanhas limitam o horizonte. Se o ouro não nos dourou, o diamante não nos abrilhantou, o ferro nos ferrou? Eis a história feita pelos homens para a vocação legada há bilhões de anos, no big bang, que confiou o magma a este recanto do planeta. O minério ensina a conter emoções e esfriar efusões. A aparente indiferença cala desejos e cria a desconfiança: é a alma mineral.
Com o ouro veio escravidão, altares da fé, barroco, revolta contra impostos, delação, luta pela liberdade. E com a mineração, poluição, devastação, destruição, ganância, desbravamento, interiorização, desenvolvimento, emprego, riqueza, poder. O tempo faz a história, que fez de nós o que somos. Sempre se disse que minério não dá duas safras. Caramba, que safra, essa!
Aos saltos, tudo veio à cabeça ao visitar o Museu das Minas e dos Metais, onde o passado, feito presente pela tecnologia, conta a história da mineração e metalurgia de forma lúdica e criativa. São seis mil metros quadrados para narrar, de várias formas, a relação do homem com um mundo mais dito que visto. Da minuciosa maquete animada, que exibe o trabalho numa mina, à escultura que revela a presença do metal na história do homem; do espelho que adorna com joias o visitante à balança que estima a quantidade de metais no seu corpo. Vídeos mostram o uso dos metais no passado e hoje, com a nanotecnologia etc. A ideia é articular a mineração e os metais com o homem e sua cultura. Bravos!
Instalado onde foi a Secretaria de Educação, o chamado prédio rosa da Praça da Liberdade, o MMM fez primoroso trabalho de restauração e adequação arquitetônica, que não parou no necessário, buscou o elaborado pedagógico. Salões, corredores, galerias, terraço, elevador panorâmico para a praça, são convites ao devaneio e à reconciliação com a origem e o passado do mineiro. Além de mineração e metalurgia, vi Minas no museu. E o Museu das Minas e do Metal é uma bela referência, como são Inhotim e o Museu de Artes e Ofícios.
Amanhã, às 19h30,no Palácio das Artes, lanço Ventania, novo romance. Apareça!
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