Felipe Hirsch - Pop cult 63

De um lado ou do outro, os últimos dias me trouxeram sensações estranhas aqui em Nova York

Aqui perto Ocuppy Wall Street completa 50 dias históricos no Zuccotti Park. Previamente, não conhecia os ativistas da “Adbusters”. Nem a revista, interessante, que pergunta “Who the fuck do you think you are?”, e completa mais ou menos assim: “Você culpa a China e a América, você culpa os CEOs, as companhias de petróleo, o ‘sistema’, os regimes internacionais de regulamentação, a hipocrisia da esquerda, a direita, os economistas, o sistema de educação, seus pais, sua infância, seu trabalho, sua saúde mental, seu governo, tudo e todos, menos você mesmo. Seu estilo de vida é o maior culpado.” Entre o naïf acadêmico e a correta indignação contra declarações do Tea Party e de seres como Herman Cain, republicano, candidato a candidato à presidência (“Não culpe Wall Street, as grandes corporações ou os bancos se você não tem um emprego e nem é rico, culpe a si mesmo!”), a “Adbusters” lança uma série de microplataformas, entre elas, um interessante texto, não desenvolvido, sobre os novos narcisos que adoram suas páginas pessoais no Facebook.

A frase de Cain faz jus à cultura dos losers, adquirida na educação americana. Um dos slogans do movimento de Wall Street afirma que os protestantes são 99%, contra 1% dos detentores do poder econômico e lobistas. O que demonstra uma tomada de partido dos perdedores, enfim. Somos todos iguais com diferentes fracassos. Occupy Wall Street acontece dez anos e seis dias depois de 11 de setembro de 2001, no mesmo bairro. Acontece também depois da Grécia (estou lendo um livro lindo sobre o tema, chamado “Nós somos a imagem do futuro”) e dos tais “ventos arábicos”. A corrente continua, desde 1989 uma coisa segue a outra, é claro. Um pouco disso é pra dizer que me alarmei com a discussão acerca do artigo de Graydon Carter, editor da “Vanity Fair”, sobre “o fim da era da
ironia”. Saboreei os desdobramentos desse artigo em múltiplas discussões interessantes, como a do “New York Times” que lista na história da arte centenas de manifestações críticas e análises cínicas e mal-humoradas, se não racionalmente violentas e cheias de humor negro, sobre perturbadores períodos traumáticos. O “Guardian”, por outro lado, sugere cuidado com a ironia “pós-moderna”. É claro que a contracultura e os anos 60 voltam à pauta, comparados à cultura indie, do anonimato, das sinopses no varejo de sentimentos pessoais do Twitter.

De um lado ou do outro, os últimos dias me trouxeram sensações estranhas aqui em Nova York. Andar por Williamsburg e, além de esbarrar em criaturas indies teenagers vintages, esbarrar no próprio tendencioso Graydon Carter foi coincidência demais. E olha que ele só está reproduzindo o que se sente no ar por aqui e no mundo (são mais de 900 cidades “ocupadas”). É curioso ou triste que isso aconteça agora sob o governo de Obama ou do PT. Isso é reflexo, é certo, mas também é situação e decepção. As alianças e os meios que justificariam os fins foram mais definitivos do que se pensava. No ar, aqui, sinto a necessidade que se sente pelos novos ares. E foi assim que vi Feist chamar para o palco toda a plateia do Brooklyn Academy of Music e acabar seu show sem jeito, sem saber como e por quê. Feist se reuniu e gravou seu disco em Big Sur e se não conseguiu um resultado intelectual do quilate da obra histórica de Dorset de P.J. Harvey, manifestou seu desejo de afastar sua música do mainstrem e torná-la mais artesanal, mais crente, menos pop e sabida.

Mais impressionante é a entidade transcendente chamada Jeff Mangum. O gênio criador de “In the aeroplane over the sea”. Afastado ou desaparecido, Mangum ressurge em poucos e disputados shows. Ressurge em Occupy Wall Street também, e a música-título de sua obra-prima se torna quase um hino desses dias: “Um dia vamos morrer e nossas cinzas voarão do avião sobre o mar, mas por enquanto somos jovens, deixe-nos deitar sob o sol (na Liberty Square) e contar cada coisa bonita que podemos ver”. O disco é uma espécie complexa de diário de Anne Frank (e sua reencarnação como um garotinho pianista na Espanha) sob a visão mística de Mangum, que, depois disso, desapareceu pelo país, dormindo em sofás de amigos, sem fazer nada por mais de dez anos. Para os fanáticos admiradores, e eu sou um deles, mesmo com tanta crença e falta de ironia, esse disco é inesquecível. Na música que abriu o show, quase culto, que vi, Jeff Mangum conta a história de gêmeos morrendo congelados na floresta. Que nesse momento um acalma o outro dizendo, com sabedoria, que será quente novamente, juntos, no estômago de um animal. Me impressiona quando, durante o show, Jeff pergunta à plateia se ela gosta de o ver afinando seu instrumento, porque é isso que fez nos últimos dez anos. Me impressiona que tenha dito: “Eu tinha
essa ideia de que se todos nós realizássemos nossos sonhos poderíamos viver felizes para sempre. Então, quando meus sonhos se tornaram realidade, ainda assim, eu me sentia vazio e via a dor dos meus amigos. Me afastei dos meus sonhos para ter um olhar mais profundo sobre a vida”.

E hoje, por mais que eu cante um pouco de (“When you were young you were the) King of Carrot Flowers", voltando pra casa, pensando naquelas pessoas, e neste mundo, reunido naquele parque frio, sei que é das três horas de desespero caótico, experimental, absurdo, delirante, e irônico, que o Ween me proporcionou, na noite de Halloween, com aquele público todo fantasiado de tudo o que você possa imaginar, até de demônios e água viva, que eu nunca esquecerei.

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