A gente vê que está ficando velho (ficando?) quando descobre que não sabe mais o que é moda e resiste a aceitar, por exemplo, o fenômeno UFC-MMA, que é hoje uma febre entre crianças e adolescentes, moças e rapazes, venerandas senhoras e senhores (há previsão de que daqui a pouco vá ultrapassar o vôlei e a Fórmula-1 em popularidade, perdendo apenas para o futebol). A minha rejeição é por não admitir como esporte esse vale tudo em que um pontapé bem dado pode desfigurar o rosto do adversário, como ocorre frequentemente. Se isso é permitido, como condenar o mesmo tipo de agressão numa briga de trânsito ou de dois alunos numa escola? Quando manifestei essa opinião há tempos, recebi mensagens dizendo que eu parecia desconhecer que essas lutas existem desde a antiguidade greco-romana. Respondi que era verdade, mas que também já foi divertido jogar cristãos vivos na arena para leões famintos, e que pelo menos nisso a civilização avançou. Os leitores que me gozavam por não entender nada do “esporte” até que tinham razão. Entendo tão pouco que, na véspera da disputa do cinturão dos pesos-pesados do UFC, eu achava que Galvão Bueno é que ia lutar contra Júnior Cigano, por causa do destaque dado pela imprensa ao nosso grande narrador esportivo, que, como disse seu filho Cacá, “acha que entende de tudo”, e parece que entende mesmo. Não vi a transmissão, mas fiquei imaginando Galvão atualizando um de seus famosos bordões — “Vai que é tua, Cigano” — e senti saudades dos tempos em que, em vez de gritar “Júnior Cigano do Brasil”, ele dizia “Ayrton Senna do Brasil”. Sua proposta de herói nacional já foi melhor.
Tenho um sobrinho-neto que adora essas lutas e não se conforma com meu reacionarismo. Tento explicar que me incomoda a violência sob qualquer forma, mesmo a simbólica, que nem é bem o caso, já que os golpes desferidos por esses chamados “gladiadores do século XXI” não são fingidos, como os beijos “técnicos” das novelas, mas pra valer. Contei que fiquei traumatizado quando vi fotos de faces de lutadores completamente deformadas, e um deles chegou a ser impedido de lutar por 180 dias em consequência de “fratura craniana e facial”. O sobrinho acha graça da minha ignorância e alega que os chutes no rosto só são permitidos quando os lutadores estão em pé, e eu digo, como Ancelmo Gois, “ah, bom!”.
Não adianta, não tem jeito, sou um caso perdido. Vou me juntar a meus colegas jurássicos e me recolher ao parque dos dinossauros mais próximo. Agora estou me preparando para quando minha neta Alice, de 2 anos, me obrigar a correr atrás de autógrafos desses campeões. O pior vai ser quando ela quiser rolar pelo chão comigo brincando de luta e gritando pra mim: “Vai que é tua, Minotauro.” Posso não acreditar em milagres, mas em castigo acredito.
Esta violência nada mais é do que o reflexo de nossa terrível realidade.Seres humanos se degladiando sempre existiu, mas agora virou um negócio muito lucrativo.Ainda virão muitas fraturas do arco zigomático por aí...é triste a sina humana meu caro.
ResponderExcluirZuenir, muito bom teu texto. Sou também jurássica como vc - 66 - e me preocupo com esse tipo de programa aberto a todos os públicos. Que aprendizagem podem passar para nossos jovens? depois, quem sofre são as professoras, nas escolas, com os alunos seguindo os modismos. E as mães ficando contra escola e professoras... às vezes eu queria que o mundo acabasse mesmo em dezembro... tô muito sem esperança na humanidade. Um abraço da Zhazah
ResponderExcluirNão sou jurássico (22 anos) mas assino embaixo de suas palavras, ver um homem esfacelando o outro por $ e fama. Com eufemismo, penso que é lamentável ver prazer em terríveis dores. Será uma forma de sadomasoquismo coletivo?
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