São 11 horas da noite de uma sexta-feira. Estou em frente à Estação Júlio Prestes, no centro de São Paulo.
O desembargador Antônio Carlos Malheiros chega acompanhado de sua mulher, Cristina. Junta-se a nós o pastor evangélico Daniel Checchio, acompanhado de dois jovens missionários. Vamos percorrer a Cracolândia sozinhos, sem escolta policial. São poucas ruas no bairro dos Campos Elíseos, onde os cachimbeiros, noias, zumbis, como se chamam os viciados em crack, instalaram-se. Quem manda é o crime organizado, cuja lei não escrita determina que lá só se pode comercializar crack, mesclado (com maconha) ou óxi (uma droga próxima ao crack, em cuja composição entra querosene – mais barata e mais letal). Os preços: R$ 5 a pedra de crack, R$ 3 a de óxi. Sem escolta, vamos sentir a realidade da Cracolândia na pele.
Andamos poucas quadras. Paro espantado na esquina da Rua Helvétia. Vejo uma montanha de lixo. Cerca de 700 pessoas esquálidas, sujas, em farrapos, estão encostadas às paredes, nas sarjetas ou andando na rua. Dois grupos tocam pagode. O cheiro de urina e de metal queimado – vindo dos cachimbos aquecidos pelo crack – invade minhas narinas, gruda-se em minha pele. Um carro vermelho para. O motorista faz um sinal. Um homem entrega um pacotinho com algumas pedras. O motorista paga e parte.
Alguém bate em meu ombro, me cutuca as costas. Não me viro. Há casarões invadidos. As janelas e portas foram fechadas por tijolos. Mas nas paredes foram cavadas imensas aberturas. Em um casarão, fico sabendo, moram de 200 a 300 pessoas.
Descubro que estou numa feira miserável. No chão, acumulam-se sapatos velhos, latas de sardinha abertas, pilhas, eletrônicos, pães de queijo murchos, tomates quase podres. Ironicamente, entre a miscelânea, uma revista de alta gastronomia.
Ergo os olhos e vejo a pichação:
WELCOME TO CRACKO CITY
Sinto um arrepio. Neste mundo com leis próprias, um olhar mal interpretado pode resultar em golpes de estilete. Mas é impossível não observar. No meio de um grupo de adolescentes acampado entre cobertores rasgados, vejo uma menina de uns 15 anos, o olhar perdido.
– Deveria estar na escola, constato.
Um casal de negros vende roupas expostas no chão, surpreendentemente limpas. Senta-se num sofá na calçada.
– É onde moram, diz Daniel. Aqui a casa das pessoas é o espaço que conseguem na rua.
Na outra calçada, uma jovem de costas me chama a atenção. Mechas loiras. Veste um bustiê preto e jeans.
Olho para seus pés. Botas de camurça. Novas. Provavelmente, de shopping. Ela se volta em minha direção. A pele de seu rosto é dourada, adorna as orelhas com argolas de prata. É linda e muito jovem.
Certamente, há pouco tempo ainda morava com a família, tinha a cama arrumada, almoço e jantar, passava temporadas na praia. Agora está ali: os cabelos já sujos, a aparência decaída. Encaminha-se para um grupo de homens cadavéricos, imundos. Eles acenam. Ela fará tudo por algumas pedras.
Um homem com uma facada na testa surge na esquina. Pede socorro. Sangra. Um dos missionários o leva a um posto médico a algumas quadras.
Aproxima-se de nós um rapaz de uns 30 anos. Conta que chegou a ficar um tempo livre das drogas. Recaiu, não pela primeira vez, há 28 dias.
– Não vou sair dessa – afirma.
Vem de uma família de classe média. Fala corretamente, é bem articulado. Foi corretor de seguros. Há seis anos está nas ruas. Vive de pedir dinheiro na rua. Vende coisas que cata no lixo.
– Sou soropositivo há nove anos.
– Se você quiser ficar limpo, a gente pode ajudar, diz Malheiros.
– Já tentei, não dá. Eu tenho todos os documentos. Mas perdi a identidade.
Nossa noite na Cracolândia só reafirma a decisão do desembargador Malheiros. Vai implantar tribunais de rua. Usar a autoridade do Judiciário para conseguir reconduzir crianças para suas famílias ou encaminhar para abrigos. Doentes para vagas no sistema de saúde público. Quer entender esse mundo antes de iniciar o projeto. O pastor Daniel aplaude:
– Toda noite morrem pelo menos três pessoas aqui. Mas não adianta algum político mandar a polícia expulsar as pessoas, simplesmente. É preciso um trabalho social.
Volto para casa. Ficamos quase três horas na Cracolândia. Sinto meu corpo pesado. Passo o resto da noite olhando as estrelas do meu terraço. Tenho vontade de chorar. É doloroso conviver com a miséria humana.
Eu adorei a parte: -Passo o resto da noite olhando as estrelas do Meu Terraço!! Tenho vontade de chorar. É doloroso conviver com a miséria humana. O cara ficou 3 horas numa espécie de turismo do horror e diz que ficou chateado em "conviver". O Walcir, vai ficar 1 mês lá com eles que isso sim é conviver. E não adianta nada! Isso é a realidade de milhões de jovens e ex-pais, ex-mães, porque agora são isso: noias, zumbis, vampiros, vermes que rastejam no lixo da sociedade brasileira, da high society das cidades; dos doutores...Na verdade tudo se resume à família e educação. E parece que educação no Brasil não presta, não vai prestar!!! O que sobra é isso: matéria-prima pro diabo pôr a mão e manipular. Onde não tem luz, tem trevas, então, é isso seu Walcir, admire as estrelas e quem sabe, isso sirva para "bolar" uma novela das oito bem pegada!!! Bombar audiência!!! Não chora não, que o Brasil é cheio de "misérias".
ResponderExcluiré dificil viver esssa realidade,mas para mim é muito mais dolorido.pois tenho meu marido viciado nesta merda chamada crack.ja tentei interna-lo ,mas não se comsegue vaga em clinicas publicas e essa de igrejas evangelicas então nem se fala,só mentiras,eu enho lutado sempre p salvar meu marido dessa doença, unica ajuda que tenho é deus ,que me da forças,e me proteje sempre que vou até lá na cracolandia p ver meu marido!!!triste realidade o crack, e os nossos governantes cuzam os braços!logico não é os filhos deles nem um parente que eles estimem muito!!
ResponderExcluirMe desculpem,mas entra nesta quem quer.Eu sou pobre,meus pais não me deram luxo,c/ 14 anos comecei a trabalhar e estudar a noite.Sempre trabalhei longe da minha casa.Hoje,pego 03 conduções para trabalhar,saio de casa as 05:40 da manhã,e gças á Deus nunca me envolvi com drogas.Não acho que a culpa seja dos governantes não,têm viciado de todo tipo,bem nascidos,mal nascidos,zelado pelos pais,maltratado pelos pais,ricos,pobres e tudo o mais.É uma questão de escolha.Sei de crianças,que começam cheirando cola de sapateiro para enganar a fome,muitos sairam de casa por serem maltratados pelos pais.Esses sim,o governo poderia cuidar,pois são incapazes de saber o certo.Não sou contra o governo ajudar,mas,obrigação,o governo não têm.Será que quem critica ajuda alguém?Pois nós,que trabalhamos,mesmo não sobrando,podemos tirar alguns reais,e comprar um caderno p/ ajudar um estudante,ou um pacote de arroz,baratinho que seja,p/ alimentar aguem.Será que é tão difícil fazer isto??Acho que não,mas com certeza,é bem mais fácil criticar e botar a culpa nos outros.
ResponderExcluirWalcyr Carrasco,se vc conseguir utilizar este tema em uma novela,meus parabéns.Isto com certeza abrirá portas,e nos tirará da zona de conforto dos nossos lares,para que possamos ajudar essas pessoas.
email : rgreen@bol.com.br
Sinceramente não me interessa criticar ninguém, trabalho atendendo os filhos destes "doentes" que eles simplesmente abandonam. Fico feliz em ver que alguém esta disposto a tentar mudar essa triste realidade, precisamos de políticas públicas voltadas pra essa demanda, precisamos de pessoas capacitadas a lidar com essa dura realidade, precisamos de pessoas que parem de criticar e coloquem a "mão na massa"...Walcyr passou três horas lá, e vc que esta criticando o que tem feito pra mudar???
ResponderExcluirSim, faltam clinicas, faltam tratamentos, mas fico feliz em ver que tem pastores, desembargadores e pessoas comuns que estão preocupadas com essa realidade tão cruel, se nada for feito em relação ao Crack o que será do Brasil, pois como temos visto essa droga esta por toda parte, matando as famílias brasileiras e seus sonhos...Parabéns pela iniciativa.