VLADIMIR SAFATLE - Abaixo da lei

"Ninguém está acima da lei." Com esta frase, o governador Geraldo Alckmin procurou justificar o fato de, mais uma vez, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP ser alvo de bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral lançadas pela Polícia Militar.

No entanto talvez fosse o caso de dizer que ninguém deveria ser tratado dessa forma pela lei. Um delito menor, como o porte de um cigarro de maconha, não justifica a presença de um batalhão da PM em ambiente escolar.

Trata-se de um delito que nem sequer é considerado como tal em vários países europeus e que vem sendo objeto de discussões sobre sua descriminalização por parte de pessoas insuspeitas de agirem em favor do tráfico internacional, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Não se trata aqui de fazer apologia às drogas. O ambiente universitário não é um território livre e não deve ser espaço para alunos fazerem uso de maconha, mas a abordagem para problemas dessa natureza vista na quinta está longe de ser a adequada. Mais uma vez, a PM demonstra sua total inaptidão para mediar conflitos sociais e manifestações estudantis. Estudantes saíram, mais uma vez, feridos.

Mas abaixo desse uso da PM há outro problema. A atual reitoria tem dificuldades de dialogar com todos os setores da comunidade acadêmica. Ela deveria lembrar que foi escolhida à revelia da maioria, já que a nomeação do atual reitor foi obra do ex-governador José Serra que, pela primeira vez desde Paulo Maluf, resolveu escolher o segundo colocado em uma lista tríplice.

Esperava-se que, devido a esse deficit de legitimidade, a atual reitoria demonstrasse mais habilidade na criação de consenso. Não foi isso o que aconteceu. Vários setores da universidade alertaram para o caráter delicado da presença da PM no campus. Mas nenhum desses setores foi convidado a discutir com a reitoria seus pontos de vista.

A PM se justifica se for o caso de coibir crimes como o assassinato de um estudante, há alguns meses.
Mas ela não está lá para correr atrás de aluno com cigarro de maconha ou para mostrar aos estudantes que a corporação não aceita provocações. Há maneiras mais inteligentes de resolver problemas banais como esse.

A tal episódio somam-se problemas como a querela da reitoria com a Faculdade de Direito, a construção de um monumento aos perseguidos pela "revolução" de 1964, entre outros.

A USP precisa de pessoas capazes de desativar problemas e conflitos, e não de acirrá-los. A FFLCH, que deu ao país intelectuais do porte de Sérgio Buarque de Holanda, Milton Santos, Bento Prado Jr., Florestan Fernandes e Antonio Candido, merece mais cuidado.

7 comentários:

  1. "0 comentários" não é a toa. fflch é associada com maconha e bagunça por causa dos seus estudantes, não por causa da polícia. PM no campus não é para reprimir os coitados dos drogados, mas TAMBEM para isso. Sem a polícia, quer que não haja assassinatos no campus como?

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  2. Citando: "Sem a polícia, quer que não haja assassinatos no campus como?" Se isso justifica a presença da polícia no Campus, deveríamos, por decreto, porque vivemos numa decretocracia, colocar a PM dentro de cada lar brasileiro, uma vez que o uxoricídio é fato corrente. Meu caro, a PM não é solução. Estude um pouquinho de História e leia menos Veja.

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  3. caro Anônimo
    A solução é: um professor de redação pra cada aluno que resolver tentar comentar um assunto tão delicado como esse, com uma redação tão parca e incoerente como a sua.

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  4. Onde não há diálogo, não há paz. Numa sociedade tão desigual, não nos reconhecemos no outro, portanto, nos agredimos eliminando o que é diferente de nós. O diálogo e a alteridade inexistem. A PM não é neutra. Ela serve ao Estado, por isso "negocia" em favor deste, ao invés de "mediar" para a SOLUÇÃO do conflito. Ela, a PM, não está preparada para tanto.

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  5. uma polícia melhor preparada para lidar com manifestações e conflitos sociais (polícia civil?) é a solução?

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  6. Triste por ler este texto. Não pelo o que a PM fez com os estudantes, mas por como você tratou isso.

    "Um delito menor, como o porte de um cigarro de maconha, não justifica a presença de um batalhão da PM em ambiente escolar.

    Não se trata aqui de fazer apologia às drogas. O ambiente universitário não é um território livre e não deve ser espaço para alunos fazerem uso de maconha, mas a abordagem para problemas dessa natureza vista na quinta está longe de ser a adequada."

    Você realmente sabe o que aconteceu? Digo, conhece todas as versões do ocorrido?

    Se soubesse teria dito, por exemplo o que aconteceu da forma correta.
    Como por exemplo, falar que a PM estava já haviam se entedido com os que lá estavam e concordaram em levar os estudantes para a delegacia. Quando a viatura estava para sair, alguns estudantes jogaram pedras e cavaletes e impediram a polícia de sair. AÍ ENTÃO começou o confronto. E como reforço o batalhão foi chamado.

    Ou seja, os alunos cometeram um crime (pelo qual nem presos seriam, somente seria feito um BO por porte de drogas) e os seus 'colegas' impediram a polícia de levá-los.
    Agora me diga: O que a USP tem de tão especial que, no Brasil inteiro, alguém pode ser detido por porte de drogas e na USP não?

    O que os alunos querem? Liberdade de expressão e de idéias, ou um lugar livre para cometerem algo ilícito?
    Por isso o uso da expressão: 'Ninguém está acima da lei'

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  7. Marcelo disse:
    Lugar de estudante é na Universidade!
    Lugar de maconheiro é na borracha da Polícia!
    Lugar de quem apóia qualquer droga licita ou ilícita como o álcool é na cadeia!

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