É possível derrotar a Aids

Caio Rosenthal e Mário Scheffer 

É possível derrotar a Aids

Alguns grupos ainda sofrem uma intensa discriminação e têm negligenciadas as suas necessidades de prevenção; temos de vencer o preconceito 


Desde a descoberta do HIV, há três décadas, e após o surgimento, há 15 anos, do coquetel de medicamentos que permite uma vida normal, o mundo espera notícias capazes de alterar os rumos da epidemia de Aids, que até hoje impõe sofrimento e perdas humanas.

Só no Brasil, a cada ano, são mais de 12 mil mortos, 35 mil novos doentes e incontáveis infecções.
Se uma vacina eficaz ainda é uma ilusão e a eliminação total do HIV no corpo da pessoa infectada parece distante, há, em contrapartida, a perspectiva da cura funcional da Aids, com a busca incessante de meios de destruir o poder de replicação do vírus, mantendo a boa qualidade de vida do paciente com um sistema imunológico forte, sem necessidade de tomar medicamentos diariamente.

Enquanto isso, a melhor novidade de 2011 é a evidência cabal de que o tratamento anti-Aids, iniciado no momento certo e seguido corretamente pelo paciente, praticamente impede a transmissão do HIV a um parceiro sexual. Além dos benefícios individuais, o tratamento passa a contribuir decisivamente com a prevenção coletiva.

Ao mesmo tempo, crescem as possibilidades do uso dos medicamentos por pessoas HIV negativas, antes ou logo depois da possível exposição ao risco.

Derrotar a Aids tornou-se cientificamente possível, mas o tratamento como prevenção também é capaz de acionar interesses comerciais, relaxar o uso de preservativos e fazer explodir os custos dos programas de Aids.

Quanto mais pessoas tomam os remédios inadequadamente, mais aumentam as chances de resistências. E muitas das transmissões são recentes, antes de o indivíduo com HIV iniciar o tratamento.

Pioneiro no fornecimento dos antirretrovirais, o Brasil terá que decidir as melhores maneiras de frear a epidemia usando essa valiosa ferramenta de que dispõe, obviamente sem diminuir o papel prioritário da camisinha, dos insumos e das ações de prevenção. O caminho não será fácil, pois aqui as drogas que salvam vidas não chegam a todos os que precisam, já que milhares de pessoas não tiveram acesso ao diagnóstico e não sabem que têm o vírus.

O Brasil nem sequer conseguiu eliminar o HIV em crianças, como fizeram muitos países. A demora em financiar decentemente o SUS, as falhas de gestão que levam a episódios de desabastecimento de medicamentos, o alto custo e a falta de transparência da política nacional de genéricos anti-Aids, que decidiu abrir mão da quebra de patentes, complicam o cenário.

Outro problema é a ênfase dos programas governamentais na vulnerabilidade universal, o conceito de que todos são igualmente afetados pela Aids, o que tem produzido equívocos, como as campanhas de incentivo ao teste anti-HIV dirigidas à população em geral, que geram mídia, sim, mas que identificam poucos novos casos.

A infecção pelo HIV no Brasil tem impacto maior em alguns grupos, prioritários para diagnóstico precoce e eventual tratamento.

São pessoas que já sofrem intensa discriminação e têm negligenciadas suas necessidades de prevenção em Aids. É o caso do jovem gay, que tem 13 vezes mais chance de se infectar do que o heterossexual e que nunca foi alvo de campanha do Ministério da Saúde.

Ou o Brasil elimina o preconceito, para zerar a transmissão, ou se distanciará do sonho possível de vencer a Aids.

1 comentários:

  1. Resta evidente que a melhor via de prevenção da infecção pelo vírus da AIDS é a conduta moral aperfeiçoada. A revitalização do conceito de fidelidade conjugal, que ainda é desprezada pelos estudiosos cientistas.

    O governo deveria financiar mais grupos de apoio que buscam orientar as pessoas à buscar uma saúde pautada no convívio familiar, nos bons valores morais que preservam da promiscuidade e afastam o ser humano do perigo dos grupos de risco. Deveria abraçar as orientações cristãs de fidelidade conjugal, de matrimônio, e difundir pela mídia estes conceitos que a custo zero de aplicação podem grandemente reduzir novos casos da doença.

    De fato, de que adianta (apoiando-me na constatação do sexto parágrafo) produzir remédios ou aparelhos (como as camisinhas) capazes de dar imunidade aos corpos se as pessoas são em sua esmagadora maioria incopetentes ou negligentes no uso correto? Antes, pois, devemos primar pela reeducação da sociedade, para que não caia no erro da irresponsabilidade.

    Para este caso médico da AIDS, que é uma doença transmitida principalmente pela interação humana, acredito que o foco deva ser justamente a pessoa humana, pois grande parte do contágio se dá pela falta de responsabilidade do infectado; ele pode não saber que possui o vírus, mas na maioria das vezes com certeza sabe que "fez por onde"...

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