AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA - Dois Bragas nesta casa‏

Pouca gente sabe que Rubem Braga formou-se em direito em Belo Horizonte (em 1932) e escreveu aqui nos Diários Associados. E quase ninguém sabe que ele começou sua carreira no antigo Diário da Tarde, graças ao seu irmão Newton, que veio antes para cá, para cuidar da saúde, pois “tinha o pulmão fraco”( o ar dessa cidade já foi terapêutico).

Deram ao jovem Rubem uma tarefa ridícula como teste: cobrir uma exposição de cães no estádio do América. Rubem se saiu tão bem que o redator-chefe Guilhermino César e colegas exclamaram: “Está nascendo um sujeito novo no jornal, no Brasil. Escreve diferente de todo mundo e escreve muito bem. Vai longe esse rapaz”.

A família Braga tinha um jornal – Correio do Sul – em Cachoeiro do Itapemirim, onde Newton e Rubem começaram cedo. Lá saiu está notícia: “Rubem Braga, o nosso jovem conterrâneo, anda fazendo, com sucesso, jornalismo em Belo Horizonte. No Diário da Tarde, vespertino moderno e leve que Newton Prates dirige com tanto brilhantismo, Rubem Braga faz entrevistas políticas, comentários sobre assuntos sérios e crônicas sobre assuntos sentimentais”.

Isso está narrado na esplêndida biografia de Rubem Braga, escrita por Marco Antônio Carvalho. Mas agora acabo de ler o livro que os filhos de Newton fizeram para celebrar o centenário desse irmão pouco conhecido de Rubem. Esse irmão é que fez a cabeça de Rubem. Foi ele que lhe apresentou o Manuel Bandeira de Libertinagem. Rubem era mais conservador. Newton era colega na Faculdade de Direito de Ciro dos Anjos e Guilhermino César.

Nessa ocasião Newton conheceu Drummond, participou da revista Leite Crioulo e namorou Eunice –uma das belas filhas da família Vivacqua. Família histórica esta. Uma das meninas veio a ser a famosa Luz del Fuego (jovens! vejam o Google, aquela do nudismo e da cobra!). Pedro Nava, Drummond, Rubem Braga contam como os jovens adoradores das irmãs Vivacqua tocaram fogo na casa delas para que irrompessem de camisola noite afora…

Em Minas, Rubem conhece Zora Seljan, filha de croatas, moça comunista e avançadíssima, pois entendia de motores e dirigia automóvel. Que Belo Horizonte era aquela? Tinha 140 mil habitantes. Como dizia então Washington Albino, ali “os fatos recusavam-se a acontecer”. A cidade não ia além da Avenida do Contorno. Guimarães Rosa estava se formando em medicina (turma de 30). E a Revolução de 30 assombrou a todos. Os futuros escritores estavam divididos entre o Bar do Ponto e o Estrela.

Vou lhes revelar uma descoberta: o decantado estilo de Rubem Braga é genético. Seu irmão Newton escrevia com mesma singeleza irônica. Numa carta ao diplomata Ribeiro Couto, em Paris, ao mesmo tempo em que dizia que os sinos da Igreja de Lourdes não o deixavam dormir aos domingos, brincava: “Você mudou de Marselha para Paris. Eu, da Rua Cláudio Manuel para a Bernardo Guimarães, 1.592”. Já Rubem morava na Rua Pernambuco.

Onde estão os textos que Newton e Rubem escreveram nos jornais mineiros? Quem os salvará? Quem estudará a admiração que Rubem tinha por Jair Silva – cronista que eu lia ali nos anos 1950 e 60? Diz Marco Antônio de Carvalho: “Não seria demais dizer que Rubem Braga se espelhou em Jair Silva e em ‘Buena Dicha’ ao publicar seu primeiro livro”. Não conheci Newton. Ele veio para o Rio por pouco tempo e voltou para Cachoeiro. Já Rubem foi meu vizinho e amigo. Ainda agora, de minha cobertura, vejo a dele, ali ao lado, nesta esplendorosa manhã de verão. Entre o apartamento dele e o meu, ergue-se o majestoso Complexo Rubem Braga, torre de 15 andares com elevadores para os habitantes da “comunidade”, que no tempo dele eram simples “favelados”.

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