Caça ao buraco negro


Projeto integra mais de 70 radiotelescópios para fotografar o objeto cósmico situado no centro da Via Láctea; observação direta desse tipo de corpo jamais foi conseguida na astronomia
 
RAFAEL GARCIA
DE WASHINGTON

Um projeto que está agrupando imagens do centro da Via Láctea obtidas por maisde 70 telescópios ao redor do mundo estima que em 2015 terá capacidade para atingir um feito sem precedentes: observar um buraco negro.

Batizado de Event Horizon Telescope, o plano começou a ser posto em prática em 2007 ainda sem perspectiva de quando -e se- essa meta poderia ser atingida. Foi num encontro no Arizona, na semana passada, que astrônomos se deram conta de que o objetivo não está longe.

A meta dos cientistas é fotografar o buraco negro gigante que físicos acreditam existir no centro da nossa galáxia. O movimento da matéria superaquecida nessa região leva a crer que ela abriga um objeto desses, com uma massa de 4 milhões de vezes a do Sol. Essa matéria tumultuada no centro da galáxia, porém, é difícil de ver.

A única maneira prática para se observar o núcleo da Via Láctea, na verdade, é com telescópios que detectam ondas de rádio, em vez de luz comum. Como elas possuem uma frequência muito menor, atravessam concentrações de matéria com mais facilidade e chegam até a periferia da galáxia, onde fica a Terra.

Um único radiotelescópio, porém, não conseguiria ver tão distante. "Seria como tentar observar uma laranja na superfície da Lua", diz Dan Marrone, da Universidade do Arizona, um dos coordenadores do projeto.

A ideia, então, é agrupar dados de 11 arranjos diferentes de radiotelescópios no Chile, na Califórnia, no Havaí, na Espanha, no México, na França e no Arizona. Juntos, eles conseguirão ter sensibilidade suficiente para enxergar a sombra do "horizonte de eventos" do buraco negro, a região onde ele começa a engolir a luz.

"Os primeiros dados, com parte dos telescópios, sugerem que há no centro da galáxia uma estrutura menor do que pensávamos. Ainda assim, é grande o suficiente para que o projeto consiga vê-la no futuro", diz Marrone.


Observação é teste para teoria de Einstein
 
DE WASHINGTON


Aquilo que o projeto Event Horizon Telescope espera ver, na verdade, não é um buraco negro em si.
Como esse objeto é capaz de engolir luz, apenas o contorno de sua sombra seria visível em meio ao brilho do plasma -matéria superaquecida-no centro da galáxia. Ainda assim, seria a primeira observação direta da estrutura de um buraco negro.

A observação pode ajudar a entender o intenso campo gravitacional ao seu redor.

A gravidade do buraco negro fica toda concentrada num único ponto, e isso é o que o torna tão particular. "A teoria da relatividade geral prevê que o horizonte de eventos -a fronteira de onde nada escapa do buraco negro- deve ser circular", diz Marrone. "Se nós o virmos e ele não tiver essa forma, significa que a teoria de Einstein não explica a gravidade em regimes extremos."

Conseguir uma imagem que traga essa resposta, porém, não será fácil. Como os observatórios do projeto não são integrados em tempo real, é preciso gravar os dados em cada um deles com equipamentos de ultra precisão. As imagens são recolhidas em forma digital e depois levadas um supercomputador que as integra.
"Não é coisa simples", afirma Morrone, explicando porque o projeto demorou tanto a decolar.
"Mas sai relativamente barato, porque não requer a construção de novos telescópios", disse.
(RG)

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DE WASHINGTON


Um radiotelescópio é como um telescópio comum, mas que detecta ondas de rádio em vez de luz. A astronomia moderna depende dos dois, porque a luz e os sinais de rádio são, na verdade, a mesma coisa: radiação eletromagnética. A diferença é que ondas de rádio têm frequências menores que as da luz.

Objetos diferentes emitem frequências de radiação distintas. Radiotelescópios são úteis para estudar regiões com concentração de estrelas e gás no espaço, porque ondas de rádio atravessam esse material. Imagens de radiotelescópio são fotos adaptadas para que a visão humana veja as frequências (cores) muito baixas.

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