Eventos de hoje são tímidos, mas filhos têm projetos sobre compositor
HERIVELTO: VILÃO para os fãs de Dalva e para filho do casal
João Máximo
maximo@oglobo.com.br
Se as comemorações pelo centenário de Herivelto Martins não estão à altura do compositor que ele foi — uma missa hoje pela manhã, na Igreja de São Jorge, e uma homenagem à noite, no Instituto Cultural Cravo Albin —, a culpa não é dos filhos. Mesmo por caminhos diferentes, o cantor Pery Ribeiro e a atriz Yaçanã Martins não conseguiram recursos para realizar os respectivos projetos: Pery, um show sinfônico com orquestra de 42 músicos regida por Amilton Godoy, num tributo aos pais, Herivelto e Dalva da Oliveira (“Não tem sentido homenageá-los em separado, já que, musicalmente, os dois estão unidos para sempre”, explica); e Yaçanã, talvez um filme ou peça de teatro a partir das cartas de amor de Herivelto para a segunda mulher, Lurdes, mã dela (“Uma minissérie em quatro capítulos não dá para contar metade da vida de meu pai”, diz a propósito da que foi produzida pela Globo no ano passado).
‘Meu pai sofreu e fez sofrer’
Os dois estão certos. Yaçanã lembra que Herivelto foi um grande personagem da música popular, talentoso, bem-sucedido, saído da pobreza em Engenheiro Paulo de Frontin, onde nasceu em 30 de janeiro de 1912, para a fama no Brasil inteiro. Teve um pai autoritário (que o levou a fugir de casa aos 18 anos), trabalhou em circo, foi barbeiro, fez biscates, mudou várias vezes de pouso, até formar Preto &
Branco com Francisco Sena. Não tendo grande voz, firmou- se como harmonizador vocal, trabalhando nessa função na antiga gravadora Victor. Em 1932, já tinha música gravada, “Da cor do meu violão”, parceria com J.B. de Carvalho. A música e o espiritismo os aproximaram.
Pery reconhece o gênio musical do pai: “Um compositor admirável, de herança musical absurdamente imensa”. Já ao homem, conforme deixou claro em “Minhas duas estrelas — Uma vida com meus pais Dalva de Oliveira e Herivelto Martins”, os reparos são muitos: “Nunca fui filho de jogar as coisas para debaixo do tapete. Meu pai fez muita bobagem, sofreu e fez sofrer, vivi tudo deperto e sei que ele saiu como o vilão da história”.
Refere-se, sobretudo, ao casamento de Herivelto com Dalva, sobre o qual foi escrita a minissérie. Uma relação que se complica na medida em que, em certo momento, repartiu- se em duas: a do casamento e a profissional, Dalva sendo a voz solista do Trio de Ouro, que Herivelto criou, a partir da dupla Preto & Branco (agora com Nilo Chagas como segunda voz masculina). O trio fez sucesso e, do ponto de vista de Herivelto, deveria manter-se unido, mesmo depois de o casamento ter acabado, Herivelto já envolvido com Lurdes. Essa parte da história Yaçanã afirma que ninguém conhece como ela.
— Minha mãe me pediu que, depois de sua morte, eu queimasse as cartas que meu pai lhe escreveu — diz Yaçanã. — Não tive coragem. São cartas de amor e, ao mesmo tempo, relatos esclarecedores de assuntos que a maioria das pessoas desconhece. Um deles, sobre o fim do trio, na Venezuela. Dalva e ele já não viviam como marido e mulher. Só não se separaram porque queriam manter o Trio de Ouro.
Do qual Dalva acabou realmente se afastando, para se lançar numa das mais vitoriosas carreiras solo da época. Enquanto ela se convertia numa estrela, o trio, com sucessivas formações, nunca mais teria o mesmo sucesso. Nesse ponto, a história foi menos generosa com Herivelto. Como a minissérie mostrou, a maior evidência que seu nome teria durante os anos 1950 seria menos a do excelente compositor (“Praça Onze”, “Acorda, escola de samba”, "Isaura”, “Ave Maria no morro”, “A Bahia te espera”, “Segredo”, “Caminhemos”, “Cabelos brancos”, “A Lapa”, “Bom dia”, “Dois corações”, “Laurindo”, “Que rei sou eu?”...) do que o alvo das canções que Dalva lhe dirigia numa famosa briga musical.
Importância superior à fama
História menos generosa e nem um pouco justa, pois o papel de Herivelto, morto em 1992, foi muito mais importante do que o de vilão, a metade de menor torcida na polêmica com Dalva. Musicalmente, como o compositor, o criador da escola de samba que animava os pré-carnavais da Rádio Nacional, o harmonizador a quem Villa-Lobos admirava, o cicerone de Orson Welles em sua viagem pela música carioca em “It’s all true”, o sindicalista que lutou pela legalização da profissão.
Assim, o centenário que se comemora hoje realmente não está à sua altura. Enquanto estuda o que vai fazer com as cartas de Lurdes (já transformadas em livro com ajuda do ator Cacau Hygino), Yaçanã manda rezar a missa na igreja do santo de devoção do pai. E enquanto aguarda patrocínio para seu “Dalva & Herivelto” sinfônico, Pery Ribeiro junta-se a Ricardo Cravo Albin e amigos numa noite musical no casarão da Urca. Nos três primeiros dias de março, o grupo Casuarina fará shows dedicados a Herivelto, com participações de Nilze Carvalho, Áurea Martins e Moyseis Marques.
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