Homs, ilha rebelde na Síria - HALA GORANI

Mesmo em tempos melhores, fazer reportagens na Síria tem sido um desafio. Hoje, significa pôr sua vida em risco. Até em viagens patrocinadas pelo governo, os jornalistas estão diante da possibilidade de morrer. Se é que ainda não é, a Síria está se tornando rapidamente uma zona de guerra.

As Nações Unidas acreditam que mais de 5 mil pessoas já morreram desde que começaram os protestos
contra o presidente Bashar Assad, há dez meses. No dia 11 de janeiro, o jornalista da TV francesa Gilles Jacquier foi morto num aparente ataque com morteiros enquanto cobria uma manifestação pró-governo em Homs, a cidade no epicentro do movimento contra Assad. Jacquier foi convidado a visitar a Síria. Estava no país oficialmente. Morreu na Síria fazendo seu trabalho.

Isto é algo preocupante em relação à Síria. O que começou como uma pequena manifestação na cidade de Daraa, no Sul do país, quando pais de crianças presas e torturadas pelas autoridades por fazer pichações contra o regime protestaram nas ruas, tornou-se uma complexa crise nacional em vários níveis.

Há manifestantes contra o regime que continuam desarmados. Mas existem também os desertores que formaram o Exército Sírio Livre e que estão prometendo derrotar o opressivo regime pela força. Enquanto isso, o presidente Bashar Assad continua culpando instigadores estrangeiros pela crise. Ele prometeu derrotar os “terroristas” com “mão de ferro”, enquanto anuncia reformas que, para os críticos, não passam de cosméticas e superficiais.

Cada rebelião da Primavera Árabe seguiu seu próprio roteiro. Na Tunísia, a prática autoritária do presidente foi substituída pelo que parece ser um processo político funcional. No Egito, o exército ainda está no comando e muitos dizem que a cabeça da ditadura foi cortada, mas o regime continua prendendo críticos e reprimindo os protestos de rua.

Em relação à Síria, um regime minoritário luta pela sobrevivência. Não deixará o poder sem resistir. Uma mudança de regime na Síria significa que a minoria alawita que dirige o país há mais de 40 anos será destituída de seus poderes e privilégios. Seu substituto ninguém ousa prever.

Nem o mais arguto observador do mundo árabe antecipou o que ocorreria em Tunísia, Egito, Iêmen, Bahrein, Líbia. Em 2012, neste momento de mudança, tudo pode acontecer.

Quando estive na Síria a trabalho em julho, o governo evitou que viajássemos à cidade de Homs alegando que não poderia garantir nossa segurança diante de “terroristas” e “gangues armadas”. Não há dúvida de que o regime vai pôr neles a culpa pelo ataque que matou Gilles Jacquier. É isso o que o governo Assad tem feito desde o início.

Para os jornalistas, tentar escrever reportagens significa entrar na Síria em segredo e confiar em contatos com rebeldes para ter acesso, na escuridão, a cidades sob sítio. Longe dos olhos curiosos dos guardas do governo, eles se arriscam a ser presos, torturados e mesmo mortos para cobrir a ação dos rebeldes.

Foi exatamente isto que um jornalista freelancer fez. Entrou em Homs com o auxílio de uma rede rebelde e fez algumas das mais dramáticas imagens da rebelião.

Uma parte de Homs, Baba Amr, está agora virtualmente sob o controle do Exército Livre da Síria. O jornalista, cujo nome preservo para sua segurança, passou vários dias documentando a luta de cidadãos de Homs. Uma ilha sob controle rebelde numa cidade sitiada. O tipo de reportagem que o regime e seus adeptos não desejam que seja divulgada.

Aqueles que arriscam a vida para nos trazer a verdade merecem nosso respeito e admiração.

Homs tornou-se um microcosmo do que a Síria pode se tornar um dia: certas áreas serão transformadas em campos de batalha entre as tropas regulares e os desertores armados, enquanto outras serão tomadas por preocupação e medo em relação ao futuro; algumas continuarão a apoiar o regime por motivos sectários ou por temer a incerteza que poderá advir do fim do regime de Assad.

Viajei pela Síria toda a minha vida. Era um dos países mais bonitos e pitorescos do mundo. Vê-lo hoje, enquanto luta por seu futuro, é às vezes difícil. Mas o mundo árabe, depois de muitos anos de paralisia, está mudando. Nada será jamais como antes.

HALA GORANI é âncora e correspondente
da rede CNN.

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