O Mercosul teve como objetivo criar um espaço estratégico macroeconômico no Cone Sul nos moldes europeus, um Mercado Comum, com integração física, comercial, cultural e política. Projeto grandioso que no futuro se estenderia a toda América do Sul, tendo como resultado final a criação de uma Comunidade de Nações, marco que chegou a ser textualizado no artigo 4º, Parágrafo Único, de nossa Constituição de 88, que inclui entre os princípios da República “a formação de uma comunidade latino-americana de nações”.
Como política internacional, estávamos encerrando nossas divergências históricas com a Argentina, baseadas na tese idiota e falsa do século 19 de que o país que dominasse o Prata dominaria a América. Essa relação de confrontação permeou nossas relações. Os dois países chegaram a tal nível de desconfiança mútua que saíram para uma competição de quem primeiro produziria uma bomba atômica, com todas as implicações de trazer a corrida nuclear para nosso continente.
A ascensão em 1989 de Menem, na Argentina, e em 1990 de Collor, no Brasil, fez com que o Tratado de Assunção mudasse os rumos para criar uma União Aduaneira, com tarifa zero. Assim os aspectos da integração política, social, cultural, física e estratégica foram esquecidos. Também o Tratado de Assunção passou a ter grandes problemas.
Após vinte e poucos anos é impossível reconstruir o clima político e o nível das relações comerciais então existentes. Hoje, com a presença da China, de novas estruturas como os Brics, a Unasul, da globalização financeira, a motivação do Mercosul fica mais distante, sobretudo porque não se realizou em plenitude.
Mas não podemos deixar de ressaltar que foi capaz de atravessar todas as graves crises econômicas das últimas duas décadas, aumentando o intercâmbio comercial, hoje de 45 bilhões de dólares, embora sua participação na economia brasileira, que chegou a 17% do nosso comércio exterior, tenha se reduzido para 9% da totalidade das trocas.
As conquistas no intercâmbio cultural, político, econômico e turístico foram grandes e em nossas relações foram eliminados todos os medos e divergências. Basta um aspecto para dar a dimensão histórica do que fizemos de maneira exemplar, o uso pacífico da energia nuclear.
Não sei se hoje, com as mudanças do mundo, construiríamos um tratado como o Mercosul. Ele só foi possível graças à visão de estadista de Raúl Alfonsín, que construiu uma parceria corajosa com o Brasil. Os governos peronistas que o sucederam jamais assimilaram esta política, fiéis a uma visão protecionista ultrapassada, com licenças prévias de exportação e restrições de toda ordem, contrárias ao espírito do próprio Mercosul. Se este sobreviveu e sobrevive deve-se à fidelidade do Brasil à ideia mais ampla e grandiosa do que ele representa para o futuro do continente sul-americano.
O grande problema atual é retirá-lo da inércia, sair das questiúnculas comerciais para pensar no que ele representou, suas conquistas, suas potencialidades de criar uma identidade coletiva latino-americana. Avaliar os erros e acertos e sobretudo não deixar morrer a utopia da integração.
Sanguinetti, esse grande estadista que tanta importância teve na criação do Mercosul, colocando o Uruguai como algodão entre cristais nas divergências entre o Brasil e Argentina, disse que o Mercosul foi o fato mais importante que aconteceu depois de nossas Independências.
Resumindo, podemos afirmar que, tendo atravessado e atravessando muitos recuos e poucos avanços, o Mercosul é um projeto que cumpriu sua inspiração inicial de acabar com todas as separações que nos impediam de trabalhar em conjunto, aproximando nossos povos, promovendo o intercâmbio e acertando políticas conjuntas que hoje podem ser vistas como latino-americanas.
É um caminho sem retorno. Mas não pode hibernar na aceitação do pessimismo.
JOSÉ SARNEY (PMDB–AP) é presidente do Senado Federal. Ex-presidente da República, no seu governo foram lançadas as bases para a criação do Mercosul.
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