Morre defensor do cinema antropológico (Linduarte Noronha)
Linduarte Noronha foi um dos percussores do Cinema Novo
Ele foi um dos precursores do Cinema Novo e seu documentário Aruanda, de 1960, é considerado uma das pedras de toque do movimento que revolucionou o cinema brasileiro naquela mesma década. Linduarte Noronha morreu ontem num hospital de João Pessoa, na Paraíba. Ele estava internado na UTI, havia dias, vítima de pneumonia. Morreu de parada respiratória. Tinha 81 anos. Nascido em Ferreiros, Pernambuco, Linduarte Noronha desenvolveu sua carreira na vizinha Paraíba. O estado foi (é) um celeiro de cineastas. Lá nasceram Vladimir Carvalho e seu irmão, Walter. Foi ele quem fez o primeiro longa de ficção do cinema da Paraíba
O salário da morte, de 1971, baseia-se no romance Fogo, de José Bezerra, e é interpretado por Margarida Cardoso, Horácio Freitas e uma jovem que depois se destacou muito – Eliane Giardini. O salário teve uma produção complicada. Poucos recursos, filmagem interrompida mais de uma vez. A própria crítica decepcionou-se e o público desertou dos cinemas, numa época em que a pornochanchada já dava as cartas no país. Mas a importância de Aruanda é indiscutível. Formado em direito, Linduarte exerceu o jornalismo (e a crítica).
Foi cineclubista, amigo de Alberto Cavalcanti e admirador de Humberto Mauro. Acreditava no cinema de raiz e cunhou uma frase que virou a diretriz de seu pensamento: "O verdadeiro cinema brasileiro só poderá alcançar, um dia, a universalidade, ao se voltar para o elemento antropológico." Com essa convicção, e atraído pelo ator natural, não profissional, ele se lançou no curta. Fez Aruanda e, dois anos mais tarde, O cajueiro nordestino, que deflagraram o ciclo paraibano. Vladimir Carvalho foi seu assistente (no primeiro) e toda uma geração de intelectuais se formou no cineclube que animava em João Pessoa.
Linduarte antecipou-se a Glauber Rocha, que destaca sua importância no Panorama crítico do cinema brasileiro. Ele pode não ter inventado o documentário reconstituído, mas foi o que fez. Aruanda, como gostava de dizer, significa ‘terra prometida’. A terra é o duro sertão, com sua dose de carências e dificuldades.
O filme retrata uma família de quilombolas no alto sertão da Paraíba. Seus pequenos gestos cotidianos são minuciosamente reconstituídos, pelo menos em parte, frente à câmera – como Robert Flaherty havia feito quase 40 anos antes, em Nanook, o esquimó, em 1922. Uma pegada social, típica do Cinema Novo, mas da solidão desses gestos se depreende também o que não deixa de ser uma dimensão ontológica, como em Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos. Até que ponto a realidade pode ser encenada e o filme ser considerado documentário? A polêmica ainda não se esgotou, mas Aruanda e Linduarte Noronha fazem parte da história do cinema no Brasil.
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