Nas fontes da criação artística - LUIZ PAULO HORTA

Uma obra de arte é algo que aproxima o homemdo divino



No maravilhoso filme de Nelson Pereira dos Santos sobre Tom Jobim, um dos temas que estão à flor da pele é o mistério da criação artística. Em momentos cruciais do filme, somos confrontados com a geração que levou a música brasileira à glória internacional, começando com o próprio Tom: Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Paulinho da Viola. Há o Tom lírico do final dos anos 50, que produziu “Dindi” e “Foi a noite ...”. Mas nada explica a explosão de talento que vem com os anos 60 (os anos dos Beatles!). Enquanto Tom sofistica (ao mesmo tempo que depura) cada vez mais sua linguagem, surgem ao lado dele todos os citados acima, num verdadeiro atropelo de obras-primas (e eu não citei nem Baden Powell, nem Jorge Ben, nem Toquinho!).

Tudo isso aconteceu há 50 anos; e durante este meio século, com todo respeito aos mais novos, continuamos a depender dessas usinas de música. Pega-se os cadernos de variedades, e qual é a notícia? Show de Chico Buarque, que não tem mais o rosto angelical retratado no filme de Nelson. (Depois de uma carreira como a dele, é quase sagrado o direito de envelhecer...)

Secou a fonte? Certamente que não. Mas ela é misteriosa como as águas de Lourdes.

Esse assunto — criação artística — é dos que jogam para escanteio qualquer raciocínio simplista sobre evolução. Diante de uma verdadeira obra de arte, você está contemplando uma dessas coisas que aproximam o homem do divino (é aquela centelha genial de Michelangelo que, no teto da Capela Sistina, faz o dedo de Deus quase tocar o dedo do homem). E, nesse caso, raciocínios simplistas não funcionam. Shakespeare escreveu no século XVII. De lá para cá, não consta que ele tenha sido superado em matéria de teatro.

Em história da arte, um dos estudos mais fascinantes é o da origem das obras-primas. Nesse terreno, cada caso é um caso (outro desmentido à tese da evolução mecânica). Castro Alves é uma verdadeira combustão de gênio, antes de apagar-se bruscamente aos 24 anos. Quase o oposto disso é a história de Machado de Assis. Talento, claro, ele sempre teve. Mas, se morresse com a idade de Castro Alves, seria hoje um capítulo marginal na história da literatura. Nenhum dos romances que ele escreveu antes dos 40 anos traz a marca do gênio. Foi preciso uma crise pessoal, ligada a problemas de saúde, para que ele passasse do estilo tranquilo e correto de “Iaiá Garcia” para as perturbadoras “Memórias póstumas de Brás Cubas”.

Tratando-se de músicos, o mistério não é menor. Schubert foi precoce. Mozart foi precoce. Beethoven foi precoce na música para piano. Mas seu método de trabalho (lembrando uma famosa frase de Einstein) pressupunha muita transpiração antes que chegasse a inspiração. Daí o artifício que ele usava (sobretudo na sua fase madura): levar caderninhos onde ia anotando temas que depois seriam minuciosamente trabalhados, virados pelo avesso, antes de chegarem à perfeição.

Mozart é tido como o músico inspirado por excelência — uma espécie de filho dos deuses a quem bastava estender a mão para colher maravilhas.

Não foi bem assim, começando pelo fato de que, obrigado pelo pai, ele estudou furiosamente desde a mais tenra idade.

Também não é verdade que ele produzisse obras-primas mal seus dedinhos alcançassem um teclado. A verdade é que, se ele escreveu muito, e desde cedo, só lá pelo K. 200 é que começa a aparecer o verdadeiro Mozart — isto é, um artista já entrando nos seus 20 anos. E aos 33 anos, a dois anos de morrer, ele conhece uma espécie de esterilidade que deve ter-lhe sido infinitamente penosa. É o ano de 1789, quase vazio de obras interessantes.

Em tudo isso eu pensava nas brechas das imagens comoventes do filme de Nelson. Eu pensava nos destinos diferentes — na produção tão constante de Chico, mal ultrapassadas as primeiras obras geniais. O que é diferente da trajetória de Milton, que sugere alguma coisa de incompleto. E vendo um Gilberto Gil exuberante, envergando um turbante africano, eu me indagava por que motivo um artista tão cheio de dons inventou de ser ministro — para nada, como se viu. E, sobre todos eles, a figura imensa de Tom, perdendo a beleza, mas refinando cada vez mais a linguagem... Mistérios.

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