O primeiro assalto - Déa Januzzi‏

Lá vem ela descendo a Rua Professor Estêvão Pinto para o plantão de domingo. Às duas da tarde, a cidade está deserta. As férias de janeiro deixaram o domingo mais vazio e quieto. Não há ninguém nas ruas e lá vem ela andando a pé, calmamente, para o trabalho de domingo. Os pensamentos fazem companhia durante o trajeto. O tempo está bom, iluminado depois de tanta chuva e ela vem descendo a rua até atravessar a Avenida do Contorno e atingir a Rua Cláudio Manoel, um caminho bem conhecido, pois morou nessa rua com o filho, a mãe dela, a cachorra Frida e os pássaros.

Lá vem ela descendo em companhia de seus pensamentos, quando uma figura sai de trás da árvore diretamente para cima dela. E ela, que nunca teve medo de nada, de repente, se vê diante de um assalto: “Me dá dinheiro, senão levo a bolsa e o celular”. Nesse momento, ela estava justamente conversando no celular com a filha de uma amiga. Um tremor balançou seu corpo como se fosse um terremoto. E ela, que nunca havia passado por uma cena dessa, se desconecta, fica imobilizada.

“Passa o dinheiro”, o cara grita, e ela pensa que só tem R$ 17 para o lanche da tarde e para a volta de táxi. Pensa em negociar, mas o cara não dá trégua. “Vou levar a bolsa e o celular”, ele repete, enquanto ela acha que levar o celular até que era uma boa, porque ela não aguenta mais ser encontrada onde não quer. Em seguida, enfia a mão na bolsa e puxa R$ 5, mas ele quer mais. Quando vai tirar os outros R$ 2, os R$ 10 vêm junto e ele leva tudo de uma só vez. E foge, advertindo-a de que não chame a polícia. Para quê?, ela pensa, com a adrenalina a mil, o rosto suando e as lágrimas quase que saltando. Aprendeu que questões como essa não são caso de polícia e sim de justiça social, mas o tempo levou também a discussão e a concretização de todas essas ideias que preocupavam a geração dela.

Lá vem ela descendo a Cláudio Manoel depois de tudo e dobrando a Piauí até chegar à Avenida Getúlio Vargas. E ela, que sempre defendeu os meninos de rua, que contribuiu com o seu trabalho para a elaboração do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), custa a admitir que levou um susto, que não gostou da violência, que se sentiu agredida. Afinal, o cara que a assaltou já era bem crescido.

Cadê Mesquita, o irmão salesiano que a levou para as ruas da cidade, na década de 1980, para conhecer a realidade dos menores abandonados? Cadê o pedagogo Antônio Carlos Gomes da Costa, que foi um dos redatores do ECA? Cadê alguém para me dizer que as pessoas ainda têm chance? Que há um caminho justo a percorrer? Por que as pessoas perderam a capacidade de se indignar? Por que o assunto só é sério quando atinge a si mesmo? Cadê alguém para dizer que há solução, que as pessoas estão varrendo a dignidade para debaixo do tapete? E que o assunto do outro não interessa, a não ser que passe em cima de cada um?

Ela está cansada dessa falta de solidariedade, dessa indiferença total com o sofrimento do outro. Dessa amargura de ninguém fazer nada, de cada um por si e salvem-se todos. Ela está triste de ver que há uma imobilidade geral na nação e que hoje todo mundo está sofrendo de uma normose incurável.

Lá vem ela, de novo, com a casca dura do caranguejo que simboliza seu signo de Câncer, mas com o coração mole. Lá vem ela descendo a rua e pensando que vai tomar mais cuidado, que precisa fazer barulho para manter seus anjos da guarda bem acordados. Lá vem ela pedindo licença para continuar com a sua postura e olhar de compaixão para com os renegados, abandonados, sofridos e injustiçados. Lá vem ela...

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